O BOM HUMOR INTELIGENTE DA FAMÍLIA

terça-feira, 18 de março de 2008

INFERNO CONJUGAL

INFERNO CONJUGAL


Uma conhecida música brasileira expressa muito bem a idéia do casamento perfeito, através de um recado da noiva para sua mãe:

“Lua-de-mel
Mamãe... mamãe... estou em lua-de-mel
Estou morando num pedaço do céu
Como o diabo gosta...

A maioria dos casamentos começa com a expectativa de completa felicidade e realização a partir do encontro com o outro. Este é o tempo de se viver o “céu”. A saudade, a falta, o cuidado. É como a música relata: morar num pedaço do céu. É a completa felicidade que até parece que não vai acabar.

O casamento é sempre idealizado. Ninguém se casa para se tornar infeliz. Pelo contrário, aqueles que se casam buscam mesmo a completa felicidade. Alguns conseguem realização no casamento e passam longos anos da vida em profunda felicidade e prazer ao lado da pessoa escolhida, e são estes que vão apresentar o casamento como a melhor maneira de encontrar o paraíso e sair da solidão. Outros, porém, não têm a mesma sorte. O casamento se transforma no pior investimento de suas vidas, e passam a proclamar em alto e bom som que ele não passa de uma instituição falida.

O trecho da música que encabeça este artigo apresenta uma dinâmica interessante no relacionamento humano, quando a cantora entoa “estou morando num pedaço do céu, como o diabo gosta”. A frase “como o diabo gosta” significa “relação muito prazerosa”. Mas, o que é preciso salientar é que na mesma música e na mesma frase, estão juntas as idéias de céu e de inferno. E é assim na realidade dos relacionamentos. O que realmente acontece é que o casamento pode passar do “céu” para o “inferno”, rapidamente.

Não há nada mais infernal do que conviver com uma pessoa que você não tolera. Especialmente se esta pessoa for seu cônjuge! Há momentos que se prefere ver o diabo a vê-lo. Prefere-se a solidão à sua companhia. É quando seja acha preferível dormir e não assistir ao programa predileto de TV, que correr o risco de vê-lo chegar e precisar trocar algumas palavras, ainda que sobre assuntos muito superficiais. Se você já alcançou este estágio, sinto informar, você não está no casamento, você está no inferno.

Jean Paul Sartre, em sua famosa peça teatral intitulada “Entre Quatro Paredes”, consegue expressar de modo muito claro esta realidade quando os personagens afirmam: o meu inferno é o outro. Um jogo de relacionamentos provoca uma série de desentendimentos e incompatibilidades que inviabiliza o contato humano entre as personagens da peça.

Muitas vezes é isso que ocorre nos relacionamentos conjugais. A vida oferece situações que tanto pode fortalecer as relações, como pode estremecê-las. Mas o que faz um casamento chegar à situação infernal a que nos referimos??? E como sair dessa situação???

Pode-se afirmar que o que fez um casamento chegar a este ponto foi uma série de situações inacabadas que fazem parte da vida do casal. Sabe aquele sentimento que você preferiu “engolir a seco”, mas que ainda lhe perturba? Sabe aquela situação que você pensou no momento em que ela ocorreu: “isso não vai ficar assim...ainda dou o troco”??? Lembra-se daquele dia que você preferiu concordar, mas por dentro ficou se roendo??? Pois é, estes são exemplos de situações que ficaram abertas, que não se fecharam, que ocorreram tanto com você como com o seu cônjuge, e que perturbam seu relacionamento, sem que você e nem ele percebam.

É possível inclusive que você até não tenha respostas para as situações acima, até nem se lembre delas, já que elas já saíram do seu campo de percepção. Mas aquelas situações ainda lhe perturbam e causam insatisfação pessoal, rancor, ódio, ressentimento, infelicidade, sentimentos de inferioridade e outras emoções que desorganizam. É preciso sair do inferno. E, a priori, todo relacionamento humano pode voltar a ser saudável, basta que se queira.

Na verdade, quando o relacionamento está muito deteriorado, não é tarefa fácil recuperá-lo. Na vida é sempre mais fácil construir algo novo que ter que reformar algo que não está bem. Mas se você quiser reconstruir seu relacionamento, você pode. Basta querer e aceitar o desafio! Há muitas maneiras de começar, mas abaixo deixo uma dica de caminho por onde começar a reparação:

· RESTABELEÇA A COMUNHÃO: Já que estamos falando em céu e inferno, podemos usar o termo “comunhão”. Comunhão não é palavra usada somente na religião. O casamento inclui a comunhão no sentido mais amplo da palavra. Estabelecer comunhão com seu cônjuge significa a voltar a considerar a ligação afetiva que você ainda tem com ele, mas que agora está adormecida ( ou estremecida). Coloque-o novamente no centro das suas emoções. Pense mais nele, programe-se para estar mais junto dele (ainda que de maneira discreta no começo para que ele não estranhe, né?). Procure senti-lo e se aproximar de tal modo que ele perceba sua aproximação. A separação emocional fez com que vocês não saibam mais o que o outro está sentindo. No começo não era assim, lembra-se? Perderam a sintonia, a comunhão. Comunhão significa também comer juntos. Só comemos juntos, à mesa, com pessoas que nos agradam. Pessoas que nos desagradam nos causam indigestão. Mas comer junto com alguém significa se preocupar em servir outro, em pensar na divisão do alimento, na comunhão.

Para ilustrar, deixo um conto antigo que bem pode ser aplicado ao casamento. Um jovem perguntou ao seu mestre: “Mestre, qual a diferença entre céu e inferno?” O mestre respondeu: “O inferno é um lugar onde as pessoas são constantemente torturadas. Elas passam fome diante de uma mesa muito grande, com toda a sorte de alimentos, os mais saborosos. Elas são obrigadas a seguir a uma regra: só é permitido comer com colher. Porém, a elas foi entregue uma colher cujo cabo mede um metro e meio. Conclusão: elas morrem de fome por não conseguirem colocar a colher na boca, já que o cabo é muito longo”. Então o jovem perguntou: “Sim, este é o inferno, mas e o céu?”. E o ouviu a sábia resposta do mestre: “O céu? O céu é um lugar parecido com este que eu ilustrei. Mesa farta e colheres com cabo longo medindo um metro e meio. Só que no céu ninguém passa fome: não há egoísmo, há comunhão, e uns alimentam os outros”.

Recomendo a leitura do livro “As quatro estações do casamento”, de Gary Chapman, Editora Vida Nova. Nele você vai encontrar sugestões muito importantes para transformar seu relacionamento e voltar a experimentar o tão almejado “céu”.

Esny Cerene Soares – Psicólogo Clínico

2 comentários:

Marcio RIbeiro disse...

Mto bom artigo Esny ... PARABéNS !!!

Tati_Glass disse...

Esny meu professor...tenho orgulho de te-lo como professor na faculdade, uma pessoa maravilhosa e acima de tudo um exelente profissional...PARABENS!